segunda-feira, 15 de julho de 2013

CENTRO DE TECNOLOGIA E CAPACITAÇÃO AEROESPACIAL - (CTCA) - COMPLEXO AERONÁUTICO DE MINAS GERAIS - POLO AEROESPACIAL - INVESTIMENTOS: EMBRAER, TRIP, GOL - ESCOLA TÉCNICA ESTADUAL EM AERONÁUTICA - VÍDEO



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Minas decola

TECNOLOGIA Estado torna-se polo da indústria aeronáutica e aeroespacial com grandes investimentos em centros de pesquisa, treinamento e manutenção, além da formação de mão de obra.

Geórgea Choucair

Quando Alberto Santos Dumont decolou a bordo do primeiro voo de avião impulsionado por motor a gasolina, em outubro de 1906, na França, não imaginaria que sua terra, Minas Gerais, seria referência na atividade aeronáutica. Pouco mais de um século depois, Minas caminha para se tornar um dos principais centros de plataforma de logística aeronáutica e estudos de aerodinâmica do país. Belo Horizonte tem hoje sede dos centros de manutenção da Gol e Trip Linhas Aéreas e o governo negocia a vinda do centro de manutenção da TAM Executiva para o estado. Junto aos centros de manutenção, há investimentos pesados em pesquisas para a indústria aeronáutica e aeroespacial, laboratórios para a fabricação de protótipos de aeronaves, unidades de simuladores de voos, instituto de estruturas inteligentes em engenharia e cursos de capacitação de pilotos e técnicos de manutenção.
Neste semestre, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) termina a construção do laboratório de aerodinâmica no câmpus Pampulha, onde será feito o túnel do vento, projetado e desenvolvido no Centro de Estudos Aeronáuticos. Esse túnel tem o objetivo de apoiar as atividades de pesquisa em ensaios em voo, sobretudo, calibração de sensores. Nele vai passar a corrente de ar controlada, que permite o estudo da aerodinâmica dos modelos de avião. A faculdade conta com o curso de engenharia em aeronáutica desde 1978, mas funcionava como especialidade da engenharia mecânica. Desde o ano passado, o curso passou a ser pleno.Atualmente a UFMG é, ao lado do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e da USP-São Carlos, uma das três instituições no Brasil aptas a formar esse tipo de engenheiro.
O curso de engenharia aeronáutica da UFMG tem duração de cinco anos e forma, em média, 50 alunos por turma. “A maioria das pessoas que se forma aqui vai para São Paulo, mas a indústria de aviação começa a florescer em Minas”, observa Paulo Iscold, professor do projeto de aeronaves do departamento de engenharia mecânica da UFMG. Segundo ele, cerca de 40% do quadro de engenheiros aeronáuticos da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) são formados na UFMG. “A nossa excelência está no conhecimento e experiências na área de aeronáutica”, diz Iscold.
A universidade conta ainda com um laboratório para a fabricação de protótipo de aeronaves. Em outubro, foi inaugurado o sétimo protótipo da faculdade, a aeronave CEA- 309 Mehari. O projeto do avião de acrobacia, coordenado pelo professor Iscold, contou com US$ 300 mil de investimento. Foi o primeiro avião de acrobacia “ilimitada” projetado e construído no Brasil, capaz de fazer manobras ousadas como piruetas, loopings e rasantes. A categoria “ilimitada” é algo similar ao que a Fórmula 1 representa para as corridas automobilísticas.
O Mehari foi projetado para executar manobras complexas, atingido até 400 graus por segundo e 430km/h. Uma das principais metas do Mehari foi reduzir o custo operacional. Isso foi possível com o uso de motor de quatro cilindros no lugar de seis. Além disso, a estrutura de fibra de carbono da aeronave, normalmente usada para esse tipo de avião, foi substituída por outros materiais como aço-cormolibdênio e madeira frejó, o que ajudou a reduzir custos. Em 2008, a UFMG construiu um hangar para abrigar as aeronaves em Conselheiro Lafaiete. “A aviação está em expansão em todo o país. A vinda dos centros de manutenção das companhias Aéreas para aqui e os investimentos de expansão permitem que o estado cresça no setor aéreo. Antes, todos os alunos que se formavam em engenharia aeronáutica eram exportados para outros estados. Queremos criar o mercado aqui”, afirma Iscold.
Dentro de 90 dias começam ainda as obras para o Programa para Implantação do Centro de Capacitação Aeroespacial de Minas Gerais, em Lagoa Santa. O objetivo do programa, instituído pelo governador Aécio Neves no mês passado, é formar mão de obra especializada em atividades nos setores aéreo e espacial. O centro vai receber investimentos em laboratórios, centros de pesquisa e desenvolvimento de protótipos de avião, unidades de simuladores de voos para treino de pilotos, escolas profissionalizantes e faculdades voltadas para a indústria aeronáutica e aeroespacial.
O laboratório de aviônicos, motores e turbinas de avião do centro vai ser usado para treinar mecânicos e engenheiros e vai contar com R$ 12 milhões de investimento. O projeto prevê ainda laboratório para uso de aulas práticas de 300 estudantes de cursos profissionalizantes, como mecânicos de aviões. A previsão é que o centro esteja em funcionamento ainda este ano. “Estão sendo criadas aqui diretrizes para a formação de pessoas e atração de empresas ligadas à indústria aeronáutica, com a preparação de estruturas de capacitação de pilotos, mecânicos e técnicos ligados à indústria aeronáutica e aviação em geral”, afirma Luiz Antônio Athayde, subsecretário de assuntos internacionais do governo.
O Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica (Ciaar), escola de formação de oficiais da Força Aérea no aeroporto da Pampulha, vai ser transferido para Lagoa Santa até 2012 e ganhará investimento de R$ 216,4 milhões da Força Aérea Brasileira (FAB). O novo centro vai contar com salas de aula, alojamento, hotéis, edifícios de comando, sistema de reaproveitamento de água, coleta e tratamento de esgoto. Tudo isso em área de 700 mil metros quadrados. O Ciaar forma cerca de 600 profissionais ao ano, que respondem por 75% dos oficiais da Aeronáutica Brasileira.
No ano passado, foi criado o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Estruturas Inteligentes em Engenharia, sob a coordenação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no Triângulo Mineiro. A indústria aeronáutica é uma das áreas que mais vai ser beneficiada com as estruturas inteligentes ou adaptativas, que têm capacidade de identificar alterações no ambiente e na forma de operação. Quando usadas nas peças de um avião, as estruturas inteligentes são capazes de diminuir ruídos e vibrações, além de apontar pequenas falhas, antes que atinjam proporções maiores.
O pesquisador e coordenador do Instituto, Valder Steffen, explica que o projeto é focado na análise de estruturas adaptativas, com modificações nas características dos materiais para facilitar o controle de possíveis falhas. Steffen afirma que houve uma mudança nos paradigmas na engenharia. Se antes a durabilidade era valorizada, hoje as estruturas são projetadas para resistir às falhas.
A Lider Aviação se prepara para fazer a concessão de um novo hangar no aeroporto da Pampulha a partir deste mês, com área de 2,1 mil metros quadrados e capacidade para oito aeronaves. A previsão é que fique pronto em março. A empresa tem dois hangares para a manutenção de aviões em Belo Horizonte, onde faz serviços de manutenção das aeronaves dos modelos King Air, Premier e Learjet. A empresa também conta com oficina de motores, de interiores de aeronaves, componentes aviônicos e um hangar para serviços especializados em manutenção da frota de helicópteros, grandes inspeções e personalização de helicópteros novos. A Lider emprega atualmente 1,55 mil funcionários e até o fim do ano espera ampliar em 10% o número de funcionários.
Na aviação regular, os investimentos também desembarcam em Minas. O centro de manutenção da Gol Linhas Aéreas, no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, finaliza sua expansão neste mês. Com o término das obras, será possível atender até 110 aeronaves no centro. A área total de trabalho de manutenção e apoio vai passar a 45,6 mil metros quadrados. A expansão vai gerar 350 empregos diretos para técnicos de diferentes níveis, além de engenheiros e supervisores, em investimento de R$ 78 milhões. Atualmente o centro emprega 650 pessoas.
No centro de manutenção da Gol em Confins são realizados todos os procedimentos e revisões mais pesadas, que demandam estrutura de hangar e mais tempo em solo. Após a expansão, o centro terá capacidade de atender, simultaneamente, até oito aeronaves em hangar e 12 no pátio. Há diferentes níveis de manutenções, desde as mais simples, realizadas antes da partida a todos os voos, às mais complexas, que demandam quase que a completa desmontagem da aeronave. A primeira fase da construção do centro de manutenção foi em 2005, com investimentos de R$ 30,5 milhões.
O centro é usado para a manutenção pesada das aeronaves Boeing 737, com trabalhos de conservação de fuselagem, preventiva, pintura de aeronaves e reestruturações da configuração interna das aeronaves. Pelo “sistema de manutenção por fases” das aeronaves Boeing Next Generation 737-700 e 737-800, a Gol consegue programar o trabalho nas aeronaves, reduzindo os custos.
A Trip Linhas Aéreas também tem projetos para a construção de um terceiro hangar em Belo Horizonte. O centro de manutenção da companhia Aérea foi transferido para o aeroporto da Pampulha em janeiro de 2008, quando a empresa comprou a mineira Total. No centro trabalham 100 funcionários na manutenção de 25 aeronaves modelos ATR-72 (68 passageiros) e ATR-42 (42 passageiros). “Hoje, sem a expansão, temos em aberto cerca de 30 vagas. Com a expansão teremos que admitir pelo menos 50 técnicos. Há um direcionamento estratégico do governo para a área da aeronáutica no estado. Tudo isso acaba trazendo as empresas de aviação para aqui”, afirma Evaristo Mascarenhas de Paula, diretor de marketing da Trip.
No segmento de helicópteros, a fábrica Helibras, inaugurada em Itajubá (MG) em 1980, produz hoje diversos modelos que atendem aos segmentos civil, governamental e militar. A fábrica entregou 31 aeronaves no ano passado, 19,23% acima do ano anterior. A maioria (16) foi do modelo Esquilo (AS350). A partir de março, as instalações da Helibras vão ser ampliadas, em projeto de R$ 420 milhões. Serão gerados mais 400 empregos diretos e 3 mil indiretos. A expansão da fábrica, projetada para dois anos, vai duplicar a capacidade instalada. O projeto está relacionado ao contrato assinado no ano passado entre o governo federal e a Eurocopter (um dos grupos acionistas da Helibras) para fornecimento de 50 helicópteros EC725 às Forças Armadas Brasileiras.
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