sábado, 6 de março de 2010

OS QUE SE QUEREM DONOS DOS MINEIROS

Por Reinaldo Azevedo, Veja:
Nasci em São Paulo. Se algum paulista se atrever a me dizer o que devo fazer “em nome do estado”, eu lhe dou um pé no traseiro. Se o nacionalismo é o último refúgio dos canalhas, como dizia Samuel Johnson, o regionalismo é o refúgio dos canalhas regionalistas. E não! Não estou me referindo de maneira sub-reptícia ou oblíqua ao governador Aécio Neves. Não o faria nesses termos porque seria imerecido. E, ainda que achasse pertinente, não o faria de modo oblíquo. Considero, no entanto, que Aécio pode ter ajudado, querendo ou não, a estimular um sentimento que, no limite, acaba sendo mais ruim do que bom para ele (alô, petralhas, antes de corrigirem o meu “mais ruim”, consultem a gramática). Vamos ver.

Valdo Cruz, colunista da Folha Online, é mineiro. Não só se considera, pelo visto, um intérprete de Minas como se transformou numa espécie de polícia da imigração interestadual. Santo Deus! Carlos Drummond de Andrade não falou EM NOME de Minas; Guimarães Rosa não falou EM NOME de Minas; nem o lendário governador Antônio Carlos falou EM NOME de Minas. Mas Valdo fala. Vai ver ele é Valdo por isso, e os outros foram Drummond, Rosa e Antônio Carlos.

Na sua coluna, lê-se o seguinte sobre a festa de ontem:
Tudo foi planejado para provocar emoção. Do início ao fim. E surtiu o efeito esperado. Mas o sentimento que ficou, ao final da festa, foi de uma certa frustração. Pelo menos para boa parte das mais de 6 mil pessoas que compareceram à cerimônia de inauguração da Cidade Administrativa presidente Tancredo Neves. Administrar esse sentimento não será tarefa fácil, mas evitar que ele prospere será fundamental para a ambição daquele que foi considerado um intruso na festa do governador Aécio Neves.
O intruso chegou atrasado. Foi praticamente o último a adentrar a nova sede do governo mineiro, projetada por Oscar Niemeyer. Justiça seja feita, chegou atrasado, mas disposto a passar resignado por constrangimentos, numa atitude de quem compreende que terá de vergar uma indumentária de humildade quando caminhar por Minas Gerais.


Volto
O intruso, vocês sabem, era o governador José Serra. “Intruso”? Pelo visto, o mineiro Valdo não o queria em solo mineiro. Ou, então, Serra é “intruso” porque se meteu na sucessão. E Valdo está entre aqueles que acreditam que isso era um assunto… mineiro. Editorial do jornal O Estado de Minas, anteontem, falava em nome das Minas Gerais aviltadas. Há quem diga que o próprio Aécio achou a coisa exagerada.

Nem vou me dedicar ao resto das fantasias do articulista, que, parece, ficou muito emocionado. Ele nos informa que é preciso ser “mineiro” para entender direito o que se passou ontem na inauguração da cidade administrativa Presidente Tancredo Neves. Ora, se é preciso ser mineiro para entender o que se faz em Minas, então seria preciso ser mineiro para entender os pleitos de Minas, não é?

Ocorre que Minas nunca foi candidata à Presidência da República. Aécio foi pré-candidato. E TEM E TERÁ TODAS AS CONDIÇÕES DE CHEGAR LÁ SE PEDIR CALMA À SUA TROPA. Pergunte a um “mineirista”, não a um mineiro, como é que a pré-candidatura de Aécio foi sabotada, e ele não saberá dizer. A exemplo de Valdo, vai responder, no máximo, que a sabotagem está na existência do “intruso”, que a vez era de Minas etc. Como se um país pudesse ser governado por um estado, não por uma liderança nacional.

Chamo a atenção para este aspecto, e creio que seria um erro Aécio não considerá-lo: seus radicais, em vez de universalizarem as suas qualidades de líder, transformam-no, cada vez mais, num homem de Minas, como se fosse chefe de uma capitania hereditária. Não é possível que ele não atente para o aspecto deletério dessa formulação.

E só uma lembrança a Valdo: alguém pode “envergar” uma indumentária, mas jamais “vergar uma indumentária”. Pergunte ao Professor Pasquale, colunista, se estiver com preguiça de ir ao dicionário. Em certo sentido, “vergar” e “envergar” podem ser termos permutáveis. Naquele empregado pelo colunista, não.

Valdo deveria fazer como Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa”. Seria um avanço. Mas não nos confundamos: seu erro mais importante não é de língua, mas de pensamento.
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