quinta-feira, 18 de março de 2010

DELINQÜENTES, AVANTE! A IMPRENSA DE SÃO PAULO GARANTE!!!


Leitor, abaixo, vai quase um guia para sobreviver à cobertura política que faz o jornalismo de São Paulo. Leia, pondere e, se achar a análise pertinente, passe adiante.
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Na Folha de S. Paulo de hoje, há um editorial intitulado “O valor da educação”. Trata das dificuldades do setor, aborda os baixos salários dos professores no Brasil e lastima a desídia de governos na área. Tudo muito certo. A imprensa costuma ter “boas opiniões”. Tanto é assim que Lula reclamou dia desses dos editoriais. Não poderia reclamar muito das notícias. Nesse caso, as coisas estão quase “dominadas”. Vejamos um caso.

Um grupo de delinqüentes, de bandidos disfarçados de professores, resolveu fazer um protesto ontem contra o governador José Serra na inauguração de uma escola técnica. Antevi que os jornais dariam destaque ao “baguncismo” segundo a visão de mundo da canalha. Não deu outra! Quando o assunto é a cobertura política feita em São Paulo, NÃO IMPORTA O VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO, APOSTE NO PIOR, LEITOR E TELESPECTADOR! VOCÊ SEMPRE ACERTA.

Falei em “delinqüentes”, em “bandidos”, em “canalha”? Falei, sim. Leiam este trecho, que está no Estadão:
“Gritando palavras de ordem e segurando pedaços de madeira com pregos, arrancados de uma cerca ao lado da escola, os manifestantes se posicionaram diante do carro, dificultando a partida. Davam chutes e murros no veículo, que se desvencilhou com a ajuda de policiais e partiu “cantando” pneus. Um ovo atingiu a parte traseira do veículo.”

Isso aí é professor? São eles que educam as nossas crianças? Na Folha, há a menção à reivindicação dos professores de reajuste de 34%. Não há uma miserável linha sobre os outros itens da pauta da Apeoesp. O ESTADÃO COMETE O CRIME DE LESA INFORMAÇÃO DE PUBLICAR UM PEQUENO QUADRO COM AS REIVINDICAÇÕES. SEGUNDO O JORNAL, SÃO ESTAS:
- Reajuste salarial imediato de 34,3%;
- Plano de carreira justo;
- Garantia de emprego;
- Fim de avaliações excludentes;
- Concurso público de caráter classificatório;
- não municipalização do ensino.

Viram como a Apeoesp é bacana e só quer o bem? Como um jornal pode considerar “reivindicação” um “plano de carreira justo”? Qual é a objetividade disso? Basta ler o site da Apeoesp e o blog da sua “presidenta”, a tal Bebel, para saber o que os “greveiros” querem de fato (além de fazer campanha eleitoral):
- reajuste de 34,3%
- fim do programa de promoção salarial por mérito;
- fim do decreto que limita o número de faltas;
- fim do concurso que seleciona os mais capazes;
- fim do currículo mínimo para as escolas;
- fim do bônus por resultado

A Apeoesp — que é o MST das cidades — quer acabar, em suma, com um programa de qualificação dos professores e das escolas, que está dando resultado, conforme evidenciam os dados do Idesp e do Saresp.

Em seu editorial em defesa da educação, a Folha escreve:
“Pode-se reformar de tudo no ensino, mas ele jamais será de qualidade sem bons professores. E estes não serão atraídos por salários medíocres. Lei sancionada em 2008 fixou um piso salarial nacional para docentes, hoje no valor de R$ 1.024,67 (inferior até à renda média do Brasil, R$ 1.117,95). No entanto, seis Estados (GO, TO, RO, CE, PE e RS) ainda pagam salários aquém disso. Sobre as escolas municipais não há dados, mas se presume que a situação seja ainda mais grave.”

Muito bem. Em São Paulo, o salaria inicial de um professor — EU ESCREVI “INICIAL” — para 40 horas é 79,08% ACIMA DO PISO. Com o plano de carreira e de promoção por mérito, com o qual a Apeoesp quer acabar, pode chegar a R$ 6.270 — 460% ACIMA da média de rendimento dos brasileiros e 510% ACIMA DO PISO NACIONAL DA CATEGORIA. A Apeoesp mente e divulga números com carga de trabalho de 24 horas semanais? Quem trabalha 24 horas por semana? A Apeoesp mente afirmando que não há reajuste para os professores desde 2005. Entre 2005 e 2009, a folha de salários cresceu 33,33% — de R$ 7,8 bilhões para R$ 10,4 bilhões — em razão dos programas de qualificação.

Não! Não há uma linha no editorial da Folha sobre o programa de São Paulo — onde já se viu fazer um elogio a Serra??? O editorial aplaudiu anteontem, como boa surpresa, o fato de Marina Silva considerar a educação uma prioridade. Que bom!

Jornalismo tem de ser isento, certo? Informa a Folha:
O governo de São Paulo diz que o movimento é político — em razão da provável candidatura de Serra- e que apenas 1% dos professores aderiram à greve. O sindicato nega. Afirma que 60% dos professores participam da paralisação no Estado. Ontem a reportagem telefonou para 108 escolas estaduais da capital e das regiões de Ribeirão Preto, Campinas, Jundiaí e São José dos Campos, escolhidas de forma aleatória. Desse total, 42 foram afetadas de alguma maneira pela greve (38,5%) -em nove nenhum professor trabalhou (8%) e em 33 uma parte não deu aula (30,5%). Em 66 escolas todos os docentes trabalharam normalmente (61,5%).

A amostragem, como fica claro, não é científica. Mas digamos que fosse. O que significa “escolas afetadas de alguma maneira pela greve”? Devem ser as escolas onde alguns professores faltaram. Como saber se as faltas foram motivadas pela greve? Todos os dias, milhares de professores faltam às aulas. Com esse texto, a reportagem fica ISENTÍSSIMA. Corresponde a dizer que nem governo nem Apeoesp falam a verdade. Houve um empate. Ainda que, para isso, a reportagem tenha encontrado um meio de transformar 6% em 30,5%. Atenção! Mesmo assim, estou sendo condescendente com o critério, já que seria perfeitamente possível a paralisação de apenas 1% dos professores e de isso ”afetar de alguma maneira” 100% das escolas.

ESSA É A HORA EM QUE O ISENTISMO E O OUTRO-LADISMO ATINGEM UM PRINCÍPIO BÁSICO DO JORNALISMO: A PRECISÃO. A razão é simples: em vez de um critério de apuração, o recurso se transforma num maneirismo.

Resumo da ópera
OS EDITORIAIS DOS JORNAIS PEDEM MAIS QUALIDADE NA EDUCAÇÃO. AS REPORTAGENS DOS JORNAIS SE TRANSFORMAM EM PORTA-VOZES DE UM SINDICATO CUJA PAUTA É DESTRUIR QUALQUER CHANCE DE ALCANÇAR A… QUALIDADE NA EDUCAÇÃO!!!

Os editorialistas, de que Lula não gosta, cobram eficiência; o editor e o repórter, de que Lula certamente gosta — sobretudo, eles gostam de Lula —, querem outra coisa. A exemplo de seus colegas militantes armados de paus com pregos, querem “DIL-MA PRESIDENTE”! A educação que se dane! E não se esqueçam: neste momento, a CUT e o PT tramam greves na Saúde, na Justiça e na Polícia Civil.

Delinqüentes, avante! A imprensa de São Paulo garante!

PS - No podcast que fiz para o Ordem Livre, tratei da relação da imprensa com a democracia e o estado de direito. Quem não ouviu pode clicar aqui. Por Reinaldo Azevedo.
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