segunda-feira, 15 de março de 2010

DUÍLIO EXPÕE O SEU DESPREPARO PARA O EXERCÍCIO POLÍTICO NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Neste fim de semana o presidente da Câmara de Sete Lagoas usou o jornal Tribuna para "soltar uma nota contra os blogueiros", como qualificou na véspera para mim o seu editor. "Oh, o Duílio vai soltar uma nota contra os blogueiros [conteúdo completo no post abaixo]", antecipou-me Roberto Andrade isentando-se de responsabilidade pela iniciativa do pré-candidato a deputado estadual, o vereador Duílio de Castro (PMN). Bem, se isso não pode evitar que o seu jornal seja incluído numa passível acusação de proselitismo eleitoral, propaganda extemporânea, pela peça de promoção pessoal do vereador, pode atenuar a sua culpa. Porque apesar da manchete que falava do desmentido do Duílio em relação a blogueiros, a peça constitui escandalosa ação eleitoral antecipada, onde não falta nada para ser caracterizada como anúncio do candidato, suponho, até a contratação do espaço ou estaria o jornal implicado como cúmplice da propaganda junto ao TRE, em caso de denúncia. Como confio em Roberto Andrade não creio que ele tenha agido como assessor de imprensa do presidente da Câmara.

Mas o espaço usado para propaganda do Sr. Duílio de Castro pretendeu servir a outro objetivo seu: matar a liberdade de expressão. E isso é o mais grave e revelador de sua ação. A propaganda claro deve lhe custar alguns reais em multa, mas o autoritarismo expresso expõe de forma miserável o seu despreparo para o exercício político no Estado Democrático de Direito. Sua fala é uma cabal demonstração de amor a ditadura que tantos jornalistas calou, que acusa sem apresentar provas, que ameaça de linchamento público quem exerce o livre direito de expressão. Ele acusa os "blogueiros" de confundir a opinião pública com "mentiras, calúnias e injúrias", sem apresentá-las e ameaça estes com o que ele chama de "braço forte" da justiça, sem esquecer de deixar no ar que a biografia dos "blogueiros" que caracteriza de "aloprados" os denigrem ao serem passadas a limpo. É tática da intimidação usada pelo ditadores como Hugo Chaves da Venezuela. Vejam sua fala sobre os "blogueiros":

"Blogueiros aloprados, que tentam confundir a opinião pública com mentiras, calúnias e injúrias. Mas, estes não merecem o respeito da sociedade, as suas biografias não resistem a uma leitura mais apurada. Contudo, nem por isso estão fora do alcance do braço forte da lei e da justiça, como já está acontecendo em diversos lugares."

Voltei
Não poderia ser mais apropriada a imagem de "braço forte" que ele trouxe e caracteriza não a lei, mas a ideia de força que intimida, ameaça e quer calar. Mas porque eu estou reagindo? O recado é para mim, deve estar se perguntando o leitor. É também. Como eu sei? Perguntei ao próprio pré-candidato a deputado. E é aí que vem mais detalhes arrepiantes como verão. Adiante.

Encontrei-me com Duílio neste sábado na rádio Cultura ele reclamou comigo do trabalho no blog, sobretudo, porque tinha me dado uma ajuda para o blog. Desta forma a coisa fica bem pior, se não vejam: esta não é a primeira vez em o presidente da Câmara relaciona a contribuição para o blog com atuação do blog em relação a ele. A outra aconteceu em setembro do ano passado quando eu publiquei como post um comentário do leitor William de Carvalho criticando o Marcelo da Cooperseltta e ele, Duílio, "que durante o evento 'Arena Gospel', afixaram faixas enormes com seus nomes de um lado e outro do palco". Disse o leitor que os chamou de "aproveitadores da fé". E, observação, neste post eu apenas subscrevi o comentário, a opinião era do leitor. E então o que faz o nobre edil Duílio? Telefona-me para reclamar porque eu não vetei o comentário, lembrou-me da sua colaboração e pediu para eu defendê-lo quando aparecesse essas críticas.

Defendê-lo? Bem, deixei barato e não expus a intenção que parecia latente da ajuda ao blog. Quanto a sua explicação para a já propaganda extemporânea feita na "Arena Gospel" eu apenas reproduzi a sua explicação que o que tinha de comprometedora só era superada pela arrogância autoritária. "O presidente da Câmara, Duílio de Castro, me telefonou para explicar que foi um patrocinador do evento, dessa forma as faixas revelariam apenas esse fato. Algo que seria totalmente natural para quem faz um patrocínio de qualquer coisa", escrevi na época. Preste atenção no "algo que seria totalmente natural" para ele e não falo nem do lado "explorador da fé", mas na ação interessada e na explicação que reafirma um direito que considera que tem porque pagou, mesmo que isso seja ilegal ou deixe insatisfeito as pessoas. Ademais convenham aparelhar eventos religiosos pega mal para caramba, não?

Mas o ponto é que o parlamentar não entendeu, ou imaginou que sua colaboração para o blog iria comprar a minha a minha consciência? Corromper o meu caráter? Influenciar a minha ação jornalística? Se pensou ele errou em milhões de quilômetros luz. Quem quiser patrocinar esse trabalho é muito bem vindo, mas tem que entender uma coisa: vai patrocinar o que eu faço e não o que gostaria que eu fizesse. Vai patrocinar o trabalho que revelou indícios de desvios do PAC e levou a criação de uma Comissão Parlamentar de Fiscalização; que fez a revelação do revelado pelo Dr. Ronaldo João em alto e bom som, mas ninguém havia se dado conta da importância e da gravidade da coisa; que denunciou a transformação do hospital em mero pronto socorro - 240 leitos para 100 leitos; que antecipou que o governo Maroca iria usar como desculpa a Vigilância Sanitária para fechar do Restaurante do Trabalhador e fez a revelia desta; e que todos os dias promove o debate livre de ideias em Sete Lagoas e tantas outras contribuições, fazendo o contraponto democrático à fragilidade muitas vezes da Câmara e a omissão da imprensa.

Mas o exercício dessa liberdade está incomodando o candidato a deputado estadual, Duílio de Castro, que ao ameaçar os blogueiros e o blogueiro aqui revela que é um analfabeto democrático. Ele só gosta quanto a opinião lhe é favorável como aqui, aqui, mas quando há algo que lhe contraria ele recorre a intimidação. Revela assim todo o seu autoritarismo como fez também indiretamente na rádio sábado? "A gente sabe que não dá nada [processo] mesmo, mas pelo menos a gente faz eles gastarem com advogado". Quer dizer, ele sabe que o exercício da liberdade é um direito, mas quer tornar esse direito caro. É assim que pensa o candidato a "representar a nossa cidade e região"; é assim que pensa o sujeito que quer se tornar um legislador estadual. Confesso que sentir-me-ei envergonhado se essa visão for levada ao parlamento mineiro como sendo a representação do que pensa a sociedade setelgoana.

Agora é risível quando ele diz que "as suas biografias [dos blogueiros] não resistem a uma leitura mais apurada". Quando em verdade é a sua "biografia" que não resiste a uma leitura que não precisa ser nada apurada. Numa rápida passada de olho se vê o tipo mais raso de político, que vai da prática do assistencialismo barato como a distribuição clientelista de leite à potencial conspiração para derrubar o chefe do Executivo. Aliás, a sentença do juiz contra Leone Maciel publica em jornal neste fim de semana é bem esclarecedora da "trama maquiavélica" em que Duílio foi um dos potênciais personagens principais e derrubou o ex-prefeito Ronaldo Canabrava. Ou é a sentença "(...) Restou provado que o uso de testemunhas peitadas, e o voto de vereadores, interesseiros, para dizer o mínimo, deram o tom e forma largamente utilizados para apear do Poder alguém [Ronaldo Canabrava] ungido pelo poder do voto popular?"

O histórico biográfico do vereador Duílio de Castro revela práticas que desejamos ultrapassar e uma atuação que no mínimo pode ser chamada de obscura. E se essa atuação passada pode ser condenada, a sua ação presente contra a liberdade de expressão dos blogueiros mostra incrível despreparo para quem quer galgar uma posição de parlamentar estadual.

PS.: A respeito da liberdade de expressão o Juíz de Direito de Sete Lagoas que deu a sentença contra Leone Maciel (PMDB) não poderia ser mais eloquente a respeito, que hora o vereador rebela-se contra. "(...) pessoas, cujas condutas de vida em decorrência dos princípios republicanos, estão sujeitas ao crivo do julgamento popular, sem que possam eles reclamarem com facilidade proveitosa, que estão tendo suas intimidades, vidas privadas e bonomia e imagem molestadas indevidamdente pela curiosidade perscrutadora daqueles que dizem representar."
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