terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O COMENTÁRIO INCONVENIENTE DE SERRA


O governador de São Paulo, José Serra, virtual candidato à Presidência do PSDB, estava em Taciba, interior de São Paulo, para a entrega de 54 ônibus escolares. Negou-se, no que faz bem, a falar sobre a sucessão no Brasil. Mas falou sobre a sucessão no Chile. No que fez mal. “Torci para o Frei [Eduardo Frei, candidato derrotado de centro-esquerda], não deu, perdeu, mas foi uma eleição limpa, e desejo sorte ao novo presidente”.

A segunda metade da declaração já estava de bom tamanho. Há uma boa possibilidade de Serra ser eleito presidente do Brasil. A declaração me parece desnecessária, deselegante até. Então por que a fez?

Serra pertence a um grupo de brasileiros que teve de se exilar duas vezes, fugindo de dois golpes de estado: o do Brasil, em 1964, e o do Chile, em 1973, onde ele estava exilado. Escapou por pouco da morte: conseguiu fugir do famigerado Estádio Nacional, convertido num campo de prisioneiros e centro de tortura. Lá estavam muitas das três mil pessoas executadas pelo regime de Pìnochet. Alguns de seus amigos e alunos foram mortos. Do Brasil, partiu uma espécie de orientação do aparelho de repressão para seu congênere chileno: era para apagá-lo. Escapou!

Mas o passado passou. E Sebastián Piñera não é herdeiro da ditadura.

Como qualquer um de nós, Serra tem suas simpatias. E, pouco importa como os petistas e assemelhados tentem deformar a sua biografia, elas estão do centro para a esquerda. Estabelece-se, assim, uma relação curiosa: os petralhas adorariam pespegar no governador a pecha de “direitista”, só que isso é, além de mentiroso, inverossímil. E Serra, como se vê — e, aí, digo eu: “Que pena!” —, faz questão de declarar a sua simpatia pela esquerda. Ainda que não seja tentado pelos delírios totalitários do petismo. Há fragiidades nesse governo, no terreno dos valores e da ideologia, que o fragilizariam severamente se expoloradas pela oposição. Mas isso não será feito. Porque Serra jamais aceitaria uma campanha caracterizada como “de direita”!!! Ainda que, muitas vezes, “de direita”, no Brasil, queira dizer apenas “de acordo com a Constituição”.


Se, como qualquer um de nós, Serra tem as suas simpatias, o fato é que ele não é qualquer um de nós. Disputa a Presidência da República. Nem a sua biografia nem as suas memórias sentimentais tornam a sua observação conveniente. Se não quer falar sobre eleição no Brasil, por que comentar a eleição do Chile? Por Reinaldo Azevedo.
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