segunda-feira, 5 de agosto de 2013

ENTREVISTA DO PRESIDENTE DA TV MINAS - JÚLIO MIRANDA AO JORNAL O TEMPO - MUDANÇAS E ADAPTAÇÕES

Entre desafios e expectativas

Júlio Miranda - Presidente da Fundação TV Minas

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Júlio Miranda

Antes de assumir a presidência da Fundação TV Minas, você foi superintendente de outras instituições, como a Alterosa Cinevídeo e o Sistema Salesiano de Videocomunicação. De que forma essas experiências podem contribuir em sua nova missão?

Como os trabalhos anteriores, o desafio agora é a gestão. Isso não depende do porte da empresa ou do segmento. Na Rede Minas há uma particularidade porque ela se submete às regras do serviço público, que tem todos os mecanismos naturais de proteção. Se por um lado, se ganha em proteção, por outro, se perde um pouco na agilidade. Tenho experiência de atuação junto à área pública, mas como prestador de serviços. Então, parte dos desafios eu já conheço. No caso de ter passado pelas área de comunicação de várias empresas, como assessor de comunicação e especialmente na área de audiovisual, significa estar um pouco mais familiarizado com a linguagem, estilo, a dinâmica do meio que é um pouco diferente. A minha passagem pela TV Alterosa, pela rádio Guarani e pelo Sistema Salesiano de Videocomunicação acelera um pouco a relação com a TV neste momento.

A Rede Minas passa por um processo de transição, reforçando o caráter público, desde a recomposição de parte dos cargos por meio de concurso público. Você tem conhecimento de outros modelos que tem funcionamento semelhante?
Eu tenho conversado com algumas pessoas e certamente o modelo da BBC e outro desenvolvido por uma emissora australiana, que funcionam muito bem e se sustentam, são fontes de inspiração. Claramente, a ideia não é importar nada sem repensá-la de acordo com a nossa realidade; não pretendemos pasteurizar o mundo e nos guiarmos pela ideia de que o que é bom para outros países deve ser interessante para nós em todos os sentidos. Mas nos inspirar em modelos vitoriosos me atrai bastante e quero estudar mais isso.
Desde 2005, a Rede Minas vem funcionando em sistema de parceria com a Associação de Desenvolvimento da Radiodifusão de Minas Gerais (ADTV), que é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Isso trouxe flexibilidade para a emissora que conquistou um espaço próprio. As recentes mudanças não trazem o risco de existir algum retrocesso?
Eu não vejo dessa maneira. O que dá para aproveitar do que foi conquistado? Simplesmente tudo. O que está sendo alterado é o modelo de gestão por uma imposição legal. O outro modelo dá mais agilidade e eu já vivenciei algo semelhante quando era superintendente do Sistema Salesiano de Vídeo, e nós, inclusive, ganhamos uma concorrência para fazer um trabalho na TV Minas, como prestadores de serviço. Essa foi a primeira tentativa da TV de encontrar um jeito de ser mais dinâmica, porque o dinamismo exigido por um veículo de comunicação e aquele possível na gestão pública são forças um pouco antagônicas. A gestão pública, pela necessidade de proteção do erário, cria trâmites que, às vezes, não combinam com a agilidade de uma TV. Porém, o Ministério Público do Trabalho e o Ministério Público do Estado entendem que, em uma TV pública, são necessários funcionários públicos. O governo, por outro lado, vem negociando isso, demonstrando que algumas funções não podem ser determinadas apenas por meio de concurso. Eu lembro que a rádio Inconfidência, há alguns anos, passou por isso. Lá havia pessoas como Tutti Maravilha, que está comemorando 26 anos à frente de um programa. E como dizer a ele, naquela época, que caso não passasse na seleção seria substituído por alguém inteligente, mas talvez sem a mesma experiência? O Ministério Publico entendeu essa questão e haverá uma quantidade de cargos comissionados, na proporção de um para dois concursados. E todos deverão obedecer a quesitos técnicos a serem preenchidos.

Como se pretende manter a Rede Minas a partir disso?
O modelo de gestão pública tem um ritmo que não é muito próximo de uma TV, mas nós vamos ter que aprender a conviver com isso. Esse talvez seja o grande desafio de sermos camaleões e nos adaptarmos a uma realidade que está posta. Ainda bem que não há o mesmo espírito de cobrança de uma TV comercial, que se exige muitas vezes, por exemplo, quanto se faturou no mês. Por outro lado, uma TV público tem sua sustentabilidade. Eu participo de alguns projetos também, como o Conselho de Presidentes e o Grupo de Intercâmbio Empresarial e há a possibilidade de se buscar, nessas iniciativas, algumas formas de patrocínio. É preciso pensar em estratégias inteligentes que tenham a ver com a natureza da televisão. Já vivi uma época em que projetos desse tipo competiam, de maneira desigual, com outras empresas de vídeo, produzindo vídeos institucionais para fazer dinheiro. De forma alguma eu acho que a sustentabilidade deve se passar por esse caminho, mas, talvez, por meio de apoios culturais inteligentes.

Em relação à programação, você pretende também atuar junto com quem está envolvido diretamente nesse processo, propondo ideias?
Essa não é a prioridade, a princípio, pois tenho um desafio de ordem gerencial grande. Mas tenho interesse nisso sim, não para atrapalhar o que existe de bom, mas para ajudar a construir coisas capazes de inovar, seguindo os objetivos de uma TV de qualidade.

Certamente, os primeiros esforços neste momento estarão voltados para essas mudanças do presente, mas, e no futuro, quais são os próximos passos? A infraestrutura é um aspecto que o preocupa?
Até chegar aqui, eu me perguntei muito sobre isso, mas felizmente eu vi que estamos bem. Atualmente, tem chegado mais ferramentas de qualidade HD e o mais importante, que indica o projeto grandioso que essa TV ainda poderá desenvolver, é o lançamento do edital para a construção da sede própria da emissora. Isso não significa apenas que teremos um patrimônio e ficaremos livre do aluguel, mas, sim, a realização de um projeto desenhado para as necessidades da Rede Minas. Não será mais um ambiente que sofreu uma adaptação. Queremos que a TV atenda aos anseios dos funcionários e da sociedade, e esse, sem dúvida, é uma condição muito importante.

Como uma TV pública pode aprimorar o diálogo com a sociedade, servindo também como espaço para que o público seja um vetor importante nesse percurso?
Diferentemente de outras organizações pelas quais eu passei, não está sendo requerida na Rede Minas uma revolução, mas, sim, uma evolução em sintonia com a sociedade como um todo. Ela quer uma evolução de pensamento, uma ação maior de transparência, participação direta ou indireta e isso é algo importante, e que percebemos por meio das manifestações via redes sociais. É um processo também que hoje se encontra em nível de multiplicação muito maior que antigamente. Acho que é o momento de se aproveitar também o que vem dessas vozes. Em relação a isso, o importante é se aliar ao movimento. Há quem queira barrar ou censurar essa aproximação, o que eu não concordo.
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