segunda-feira, 28 de março de 2011

O partido do comércio


Por ROGÉRIO AMATO, na Folha:

Os comerciantes, assim como outras categorias, têm todo o direito de criar um partido político que represente e defenda os interesses do setor

Com desagradável surpresa, li o artigo de Fernando de Barros e Silva na Folha de 23/3 ("Partido comercial"). A pretexto de analisar, ou atacar, a criação do Partido Social Democrático (PSD), o articulista se preocupa muito mais com pessoas do que com ideias. Até aí, nada demais. Cada um expõe os seus conceitos como quer, mas o que me revoltou foi o preconceito revelado na forma de se referir aos comerciantes.

Talvez ele não conheça a contribuição da atividade comercial para o desenvolvimento do país, ao ser não apenas o elo entre a produção e o consumo mas também fator fundamental do processo de geração de riquezas, funcionando como elemento regulador da oferta e da demanda e captando os desejos e necessidades dos consumidores, para orientar a indústria sobre o que e quanto produzir.
Com seu pioneirismo, ao explorar novas regiões ou novas formas de comercialização, amplia os mercados e propicia aumento do bem-estar da população.

Revela também que o articulista não conhece as associações comerciais, que, ao contrário do que afirma, não são entidades exclusivas do comércio, pois contam em seus quadros com empresas industriais, comerciais, prestadores de serviços, instituições financeiras e profissionais liberais ligados às atividades econômicas.
Posso dar meu exemplo. Sou industrial e acabo de assumir a presidência da Associação Comercial de São Paulo. Orgulhamo-nos da participação dos comerciantes na entidade ao longo de sua história.

Só para citar um exemplo, o filho de comerciantes Carlos de Souza Nazareth foi preso e exilado no tempo em que presidiu a Associação Comercial de São Paulo, quando foi um dos líderes da Revolução Constitucionalista de 1932, que lutou para o restabelecimento da liberdade, inclusive de opinião, no país.
Os comerciantes, assim como outras categorias econômicas, têm todo o direito de criar um partido político que represente e defenda os interesses do setor.

Se eles decidissem criar um partido, seguramente ele seria liberal, porque a atividade comercial se submete diariamente ao voto do consumidor, que, com sua liberdade de escolha, ao decidir comprar ou não em seu estabelecimento, determina seu sucesso ou fracasso.
Em 1915, as classes produtoras paulistas discutiram a ideia da criação do Partido do Comercio, argumentando que "é conveniente aos interesses do país a colaboração, no estudo dos problemas nacionais, de espíritos práticos, conhecedores das necessidades econômicas da nação e despidos de teorias vistosas mas inconsistentes".
Ainda hoje a necessidade da contribuição dos comerciantes, bem como dos empresários das demais atividades, continua sendo necessária, pois são eles que conhecem as dificuldades para criar uma empresa, gerar riqueza, oferecer empregos, atender às necessidades e desejos dos consumidores.

Talvez o articulista tenha apenas pretendido ser irônico, mas acabou sendo ofensivo a uma classe a quem muito deve o país. A ironia deve ser adequada a todos os aspectos do contexto, sob pena de não fazer sentido ou representar um sentido inverso ao pretendido.

ROGÉRIO AMATO, 62, é presidente da Associação Comercial de São Paulo e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo.
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